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Jorge Salgado prevê mais R$ 100 milhões para o futebol do Vasco no triênio e critica Campello: ‘Muito pouco resultado’


Numa entrevista de mais de uma hora de duração, Jorge Salgado, de 73 anos, à frente do computador, tentou resumir nos primeiros 15 minutos a trajetória pessoal e profissional. Lembrou o passado no Vasco de 1987 a 1989, com ajustes na vice-presidência de finanças, títulos no clube e a posterior chegada à CBF, para substituir Eurico Miranda.

O então vice de futebol e o presidente Antônio Soares Calçada, quase dez anos mais tarde, seriam os responsáveis pelo afastamento de São Januário deste empresário do mercado financeiro. Ele conta que a derrota na eleição de 1997, depois da certeza da vitória em pesquisas eleitorais, gerou distanciamento do clube do qual é sócio desde 1977.

– Toda vez que era procurado para ser candidato eu saía com essa desculpa. Que era uma boa desculpa para mim: “não vou ser candidato para perder, para repetir 1997. Ganhar na pesquisa e perder no voto fraudado”. Não fazia sentido isso para mim – disse Salgado ao ge.

O candidato pela “Mais Vasco”, nesta conversa, após ter anunciado a candidatura em agosto, falou da gestão de Campello, com dois lados bem definidos, com elogios, mas ressalvas, e críticas no futebol. Também abordou a dívida acumulada ao longo das últimas três administrações.

A entrevista completa com Jorge Salgado

O senhor se candidata pela segunda vez. Por que voltar agora, quase 30 anos depois?

– Minha história vem lá de 1997, naquela altura me coloquei, apoiado por grandes figuras, grandes beneméritos, à disposição do Vasco e fui candidato de oposição. A gente fez campanha muito boa e gerou confiança muito grande de vitória. Pouco antes da eleição fiz pesquisa com o Ibope, a gente tinha 27% na frente para o segundo. A gente tinha naquela altura como carro-chefe, para os próximos anos, uma parceria com o banco Icatu. Eles antecipariam recursos para o clube em troca de exploração de imagem. Eu assinei esse contrato com o banco, 15 dias antes. A gente ia entrar no Vasco com apoio muito grande financeiro. Ali, em 1997, a dívida do Vasco era muito baixa. Se eu tivesse que colocar número, acho que devia mais ou menos US$ 10 milhões. A gente ia conseguir com esse contrato da Icatu três vezes isso, ao longo dos três anos, seis anos seguintes. A candidatura estava posta, achávamos que tínhamos boas chances de ganhar e fomos para a eleição.

– A gente se surpreendeu no dia da eleição com o grande volume de pessoas que apareciam para votar, que surgiam repentinamente. Começaram a chegar denúncias que estavam ali, mas não eram sócios, estavam votando por outras pessoas. A partir dali me afastei um pouco politicamente do clube. Não me envolvi muito, mas sempre fui oposição na hora de votar. Sempre achei que o Vasco tinha que ter mudança de mentalidade, trazer processos, modernidade, dar choque de gestão, sempre achei que a saída era por aí. Durante esse tempo todo, me senti muito pouco confortável do lado de fora. Estava vendo acontecer um monte de coisas erradas do ponto de vista de gestão, muito ruim, muita controvérsia, o Vasco não conseguia evoluir e eu angustiado com essa situação, mas sem querer me envolver como candidato, porque sabia também que as eleições continuavam fraudadas.

Já há série de ações na Justiça para esta eleição. Como vê esse processo?

– Existe esse litígio todo em volta da eleição, mas pelo menos há uma indicação de luz no fim do túnel, do ponto de visto de se procurar uma eleição limpa, sem os vícios das eleições anteriores. Mas, mais do que isso, fui procurado pelo pessoal da “Mais Vasco”. Já conhecia algumas pessoas e depois de algumas reuniões entendi que talvez fosse o momento de voltar como candidato.

– Obviamente que tenho que sair dessa zona de conforto. Minha vida profissional está resolvida. Hoje estou fora da minha empresa, faço parte apenas do conselho, então não tenho que me dedicar full time à Ativa (nome da corretora). Isso me proporciona um tempo bastante suficiente para tentar resolver os graves problemas que nosso clube tem.

– Aliando possibilidade de eleição limpa, com equipe muito bem estruturada, porque a “Mais Vasco” já vem trabalhando há alguns meses, seis meses, um ano. Temos mais ou menos 80 pessoas planejando em cada área, marketing, jurídica, estatuto, para modernizar, então estamos muito confortáveis. Eu me sinto muito confortável, confiante em fazer as coisas mudarem e ao lado de profissionais altamente competentes e testados em suas empresas, em suas atividades e, vou além, se eu tivesse que pagar para receber esse trabalho que recebi de planejamento, ia me custar muito caro.

– As pessoas envolvidas são as melhores de suas áreas e vêm trabalhando há muito tempo. Uma dedicação absurda para discutir os temas, se reunir, toda hora em debate. Pessoas que não têm nenhum tipo de interesse, ao contrário. Todos são formados, alguns têm PHD, equipe realmente que tenho certeza que outras candidaturas não têm. Aprendi a trabalhar em equipe, ninguém faz nada sozinho, ninguém entende de tudo ao mesmo tempo. O Vasco é uma potência, mas vai ser se tivermos meio de tornar isso viável. Precisamos de expertise no marketing, em finanças, para ter orçamento confiável. Alguém para dizer “não posso trazer esse jogador, porque não está dentro do orçamento, esse eu posso trazer porque cabe”. Enfim, essa discussão que temos que começar a gerar, temos que olhar para o nosso patrimônio e vamos pegar isso praticamente no início, para dar continuidade a projetos que estão surgindo.

O que, por exemplo?

– Temos 110 mil sócios torcedores, queremos impulsionar isso até o fim do mandato para 150 mil sócios torcedores. Queremos transformar o sócio torcedor em sócio proprietário. Aquele que já tem alguns anos de pagamento de mensalidade, então aquele sócio que quiser votar ele pode sair de sócio torcedor para proprietário com abatimento da joia. Com isso, vamos ampliar e muito nosso quadro social.

– Possivelmente, fazendo alguns exercícios, a gente pode chegar a 40 mil sócios na próxima eleição. Na próxima, vamos propiciar para que votem de maneira eletrônica. A gente tem alguns movimentos muito fortes para fazer em diversas áreas nos próximos três anos.

– Eu pretendo administrar o clube como faço na minha empresa, com responsabilidade, crescendo continuamente, então a gente acha que o planejamento, a equipe, a gente vai entregar um Vasco muito melhor daqui a três anos. E também uma cultura diferente do que tem hoje. O que acontece no dia a dia do Vasco não transmite energia para fora. O Vasco é notícia porque tem briga do presidente do Conselho Deliberativo, porque o presidente tem duas contas reprovadas, houve o problema da eleição, uma eleição altamente controversa, polêmica… o clube também ficou muito tempo sem vice de futebol, a gente também não admite um clube de futebol que não tenha VP. Presidente em “n” atribuições e o futebol é o carro-chefe do clube, deveria ter pessoa responsável.

Qual sua avaliação da gestão Campello? Ele disse que você considerava a administração muito boa e que, possivelmente, você não seria candidato se ele fosse.

– A gestão do futebol, no meu modo de ver, foi muito ineficiente. A gente teve pouco resultado nos últimos três anos, muita ineficiência na gestão do futebol. A gente tem grupo de jogadores, que não deve ser pequeno, com salários altos, temos que ter mais eficiência, mais inteligência. Queremos formar comitê que vai analisar contratação, eventualmente questão salarial, vai colocar metas para gestores do futebol, então isso tudo tem que ser revisto. Vamos esperar o fim do campeonato, fazer avaliação, não queremos de maneira nenhuma interferir no que está acontecendo agora.

– No geral, se tivesse que dar uma nota, daria 5 ou 6. Porque houve avanços na área financeira-contábil. O Vasco melhorou seus processos administrativos. Ainda não chegamos no ideal, mas melhorou muito. O Vasco hoje tem balanço auditado por empresa conhecida, nesse aspecto deu melhorada boa. Mas quem construiu as bases para essa melhora são as pessoas que estão comigo, na nossa chapa. Um outro ponto positivo que acho foi do aumento de sócios. Mas acho que veio de fora para dentro, não foi de dentro para fora. Óbvio que a gente soube captar isso, mas em determinado momento nossa torcida acordou e percebeu que precisava ajudar o clube, estávamos ficando em posição de muita inferioridade em relação aos nossos rivais. A torcida abraçou o clube em momento de muita fragilidade. Depois, em consequência disso houve movimento de crownfunding do CT, o Vasco já tinha alguns projetos nessa área também. Isso eu considero alguns aspectos na gestão do Campello.

– Agora, o que não deu certo. Ele nunca conseguiu construir base política dentro do Conselho Deliberativo, Fiscal e em alguns momentos no Conselho de Beneméritos. A eleição dele foi muito contestada, você pode imaginar a situação de um sócio que vota em determinado candidato e quando acorda se depara com outro candidato, que apoiava o outro. Então é uma situação no mínimo esdrúxula. A base de apoio dele virou a oposição que ele tanto combatia. Ele se aliou a oposição para pouco tempo depois brigar com essa oposição que o elegeu e a partir daí criar todo esse tumulto dentro do Vasco. Então, isso é um aspecto extremamente negativo do ponto de vista de comportamento e gestão. Não é uma coisa positiva.

– Ele entendeu que devia ser o VP de futebol sem nunca ter tido efetivamente experiência nessa área. Ele foi médico do Vasco, eu me lembro muito bem do Campello, na gestão que tive com Calçada e Eurico, estava começando no Vasco. Mas nunca foi executivo de futebol, nunca esteve envolvido numa gestão mais ampla do ponto de vista do futebol. E os resultados estão aí para mostrar que houve falha nessa gestão. A gente teve resultado muito ruim nos últimos três anos. Sempre chegamos na fase final da tabela. Culminando com esse Carioca que chegamos em sétimo lugar, um vexame absurdo. Acho que a gestão avançou nessa questão de finanças, muito por conta dessas pessoas que hoje estão na nossa candidatura, a questão de sócios foi de fora para dentro e o futebol foi um fracasso.

– Fracassamos em resultado dentro de campo e de gestão dentro do futebol. Pagamos muito caro e tivemos muito pouco resultado. Custo x benefício muito ruim.

– Hoje não sei quantos têm, se tem 45, 52, e constantemente vemos quanto se improvisa nessa área. Agora estão falando novas contratações. Isso sempre surge quando um jogador está mal duas, três partidas. Açodadamente se quer contratar outro. Revela falta de planejamento, falta de coerência absurda. Então a gente precisa melhorar muito esse futebol. Acho que a atual administração deixou muito a desejar, pagou muito e teve pouco resultado.

– Para terem ideia, de acordo com os números do orçamento que temos, a eficiência vai gerar a economia de mais ou menos R$ 1 milhão, 1,5 milhão por mês de salário. AÍ você multiplicando, R$ 1,5 milhão de salário que você joga fora por mês. São jogadores que não estão jogando, que estão em faixa de salarial acima do que deveriam estar…

Mas estão sob contrato. Como vai fazer?

– Mas alguns estão acabando no final do ano, no meio do ano, vamos tentar alguma negociação para esse tipo de jogador. Fora isso, devemos ter incrementeo de mais ou menos R$ 2 milhões por mês. Se fizer conta simples, de investimento de R$ 2 milhões a mais na folha, mais R$ 1,5 milhão de redução de despesas de salários de jogadores, você tem mais ou menos R$ 3 milhões e pouco de incremento no futebol. Multiplicado por três anos, a gente vai ter algo perto de R$ 100 milhões a mais investido no futebol em três anos. Uma melhora da eficiência e incremento proporcionado por aumento de receita que a gente deve ter com mais sócios, ações na área de marketing. A gente está otimista com a possibilidade de ter time melhor, pagando mais e com mais eficiência.

O senhor comentou a questão política do Vasco. É possível amenizar essa disputa política? Como isso pode ser feito?

– Se depender de mim vou dar todo meu esforço para trabalhar no sentido de pacificar. Acabou a eleição vou procurar o candidato que ficou em segundo lugar. Vou abrir as portas da minha gestão, no sentido de manter diálogo, trazer qualquer tipo de demanda. Os outros a mesma coisa, vou estar aberto. Quero fazer gestão da paz. Acho que tenho toda a condição para isso. Vou ser eleito, vou ter 120 votos no conselho, a chapa perdedora vai ter 30 votos. Isso vai ser uma blindagem, mais os votos do benemérito, vai nos dar tranquilidade de resolver as coisas sem briga.

– Essa briga toda aconteceu por conta de eleição completamente atípica dentro do Vasco. Candidato eleito pelo sócio, que não consegue se viabilizar dentro do Conselho. Conheço todos os candidatos, já estive com todos eles. O Julio (Brant) é um garoto, que está começando agora, apesar de estar na terceira eleição, ele é muito pouco experiente do ponto de vista de gestão de clube. Nunca passou pelo Vasco. Leven (Siano) posso dizer a mesma coisa, é sócio há cinco anos do clube. Mas é uma pessoa que a gente não conhece em termos de Vasco. Não sei avaliar, de qualquer maneira é uma pessoa fácil de conversar. Não temos nenhum tipo de problema. Se algumas das ideias forem viáveis, vamos conversar e vamos avançar nelas.

– Esse vai ser o espírito, da conciliação, de trazer ideias de outros candidatos. Tentar colocar o Vasco no lugar que ele merece. Temos que ter bom relacionamento com órgãos de imprensa, franco, transparente, não é possível comprar briga com a TV que patrocina o Brasileiro. Temos que ter relação cordial, uma boa relação. Agora, nem por isso vamos deixar de melhorar as coisas, se a gente acha que poderia receber mais da TV. A gente é a quarta, quinta maior torcida do Brasil.

– O que interessa dizer é que vamos manter bom relacionamento com candidatos que perderem, com presidentes de outro conselhos, com o sócio vamos manter canal aberto. Vamos falar a verdade, enfrentar os momentos difíceis de frente, de cara limpa.

O senhor vê disponibilidade nos outros agentes do Vasco para acalmar a política?

– Por incrível que pareça, sim, o Vasco está preparado para a pacificação. Se você for ver, a gente tinha um problema político muito sério. Por muitos anos, o Vasco foi dirigido e “empoderado” por uma pessoa muito forte (Eurico Miranda). Vocês todos conhecem. De algum tempo para cá, depois disso, as forças políticas se dividiram. Hoje você não encontra alguém que canalize uma oposição ferrenha. A gente não tem mais aquele personagem do ponto de vista de ter que tirá-lo.

– Então, o que a gente busca é um caminho novo. Começam a surgir novas lideranças, tem muita gente boa no Vasco. Gente que quer ajudar, quer fazer as coisas direito, dentro da conformidade, sem malandragem, sem conchavo. A gente quer trazer essa cultura para dentro do clube, uma cultura que ficou relevada a segundo plano por muitos anos. A gente quer sair disso. A gente quer fazer as coisas direito. Pode fazer? Faz. Não pode? Não faz. O jeitinho não quero mais.

– Temos de acabar com privilégio. As pessoas têm de entender que o clube existe para a gente se doar a ele. E não para se beneficiar dele. Então, talvez a gente tenha chegado ao ponto que chegou por conta de uma cultura ultrapassada, errada. Se achava que sempre daria certo com o jeitinho, com o cambalacho.

– Com passar o outro para trás. Isso não leva a nada. Isso leva à mediocridade. A tropeçar logo adiante. Queremos uma cultura moderno, aberta, uma cultura do bem, vamos chamar assim. Queremos resgatar isso. Eu estava meio afastado, mas na campanha vejo o entusiasmo do vascaíno em querer ajudar. As pessoas querem isso. Tem muita gente boa desconhecida, que a gente quer trazer para o Vasco.

O senhor comentou sobre aumento de 30% no orçamento do futebol no primeiro ano. Como? O presidente que entra, normalmente, já entra devendo salários da gestão anterior… Foi assim em todas últimas administrações.

– Ao assumir, a gente pretende fazer duas captações no mercado. Eu sou dessa área financeira… A gente trabalha em dois produtos financeiros. Um é o CCB, que é Cédula de Crédito Bancário e um FIDC (Fundos de Investimento em Direitos Creditórios). Esse CCB deve ser uma captação de aproximadamente R$ 70 milhões, que vai me gerar um conforto inicial para eventualmente pagar os atrasados.

– Ao longo desse curso, as nossas receitas devem melhorar, e eu consigo me equilibrar. Mais adiante, a gente deve fazer a captação do FIDC, de mais ou menos R$ 100 milhões. A gente vai utilizar esse recurso para destruir uma dívida cara, colocar uma dívida mais barata ali dentro. Isso significa dizer que a gente vai diminuir o endividamento através da captação de recursos mais baratos. Nas simulações que temos, o Vasco deve mais ou menos R$ 650 milhões, e 80% dessa dívida é trabalhista e fiscal. Com recurso na mão, se consegue deságio muito grande nessa dívida. Com isso, começa a liberar recurso que está em garantia.

– Ao longo desses anos, ao final do mandato, a gente acha que consegue reduzir para uns R$ 400 milhões. A nossa receita é de R$ 200 milhões, pensamos em crescer para R$ 350 milhões. Se der muito certo, a gente pode ir para R$ 400 milhões. E aí a gente não vai mais ter o sequestro do nosso caixa por ações que acontecem a toda hora.

– Queremos ter uma área de marketing muito forte para gerar receita. Tem a TV Vasco, enfim, tem uma série de possibilidades para aumentar a receita. Não só através da mensalidade do sócio, mas temos de chegar a ale com diversos produtos, tem o e-comerce para quem está fora do Rio.

– Eu tenho falado que quero o Vasco no celular. Por um aplicativo, o associado vai ter tudo. Não só pagar a mensalidade, vai ter a TV, as informações, a compra de produto que a gente entregue depois. Isso tudo vai proporcionar a alavancagem de receita. Vamos trabalhar muito em licenciamento, obviamente. Temos, pelo o que falam, 70% da torcida do Vasco off-Rio. E essas pessoas são entusiasmadas, mas não monetizam. Poderiam gerar receita e estão praticamente abandonados, sem acesso a produtos e informações. Queremos uma reviravolta muito grande nessa área.

Adriano Mendes, ex-VP de Controladoria, deixou a gestão Campello e integra a sua base de apoio. Ele previa em 2018 que a dívida estaria em R$ 506 milhões, mas a realidade foi de quase R$ 600 milhões no fim daquele ano e, depois, R$ 645 milhões no fim de 2019. A apresentação dele previa, também, que até 2024 o Vasco poderia estar sem dívida. Ou seja, esses planos não andaram…

– Não vai ser nada fácil. Tem um ditado que diz: “papel aceita qualquer desaforo”. A gente não está colocando desaforo no nosso planejamento, mas a gente sabe que algumas coisas podem não se viabilizar da maneira que a gente pensa. Por exemplo: a captação de recursos. Não será fácil convencer o investidor a comprar.

– Você compraria hoje um título do Vasco? Oferecendo que pagaria o título daqui a três anos… você compraria? Eu acho que você iria pensar muitas vezes. Agora, uma coisa é decidir o investimento sabendo o nível de risco e quem está do outro lado para te pagar. Outra é contrair uma dívida com um irresponsável, uma pessoa que não tem ficha limpa e não tem história boa.

– Você não vai querer ter um empréstimo com essa pessoa. Se no clube tem uma pessoa com boa história, com boa ficha, se tem uma empresa que opera todos os dias, se paga todos os seus compromissos em dia… Eu, há 37 anos, pago o salário dos meus funcionários no dia 25 de todo mês. Eu pago meus impostos, pago meus compromissos. Eu tenho bom relacionamento os players do mercado, com bancos… Então, eu acho que isso dá um selo de qualidade no produto que estou oferecendo. É óbvio que ninguém vai aplicar no título se perceber que não há garantia. Não vai ser fácil, mas potencial tem. É muito dinheiro que há na mesa.

– Eu estou falando com um determinando banco de investimento, que só faz isso. Aloca recurso de cliente. Esse banco sozinho tem aproximadamente R$ 27 bilhões para aplicar. Então, quando eu falo de R$ 70 milhões mais R$ 100 milhões, eu estou falando de uma gotinha pequena da carteira desse banco. O que esse banco procura? Uma taxa diferenciada, ele quer sair do CDI, do CDB, que paga 2% ao ano. Por qual motivo ele não pode aplicar no meu título, com boas garantias, recebendo uma taxa de 5%, 6% ou 7%. É óbvio que ele não vai colocar todo o dinheiro no meu título, mas ele pode fazer um pouco em uma diversificação. Se você somar essas gotinhas todas, pode ser que a gente consiga o que a gente quer.

– Não é querer ser otimista, mas é acreditar. Se a gente não acreditar, quem vai? Eu tenho de acreditar no que estou fazendo. Acredito baseado em número, não em fantasia. O banco pode, em uma fração, destinar parte ao nosso produto.

Como funcionaria esse empréstimo? Quais as garantias que seriam dadas?

– A gente vai ter de oferecer garantia para captar esses recursos. Qual será? Estamos analisando. Provavelmente, a gente vai oferecer contratos de televisão e arrecadação de Sócio Torcedor. Basicamente, essas são as duas grandes garantias que podemos oferecer. A terceira é a venda de jogador. Elas devem compor o produto. Ao comprar um FIDC do Vasco, você vai ter como garantia essas três coisas. Vamos definir exatamente como vai ser, mas a garantia sairá daí.

– Agora, sabe o que eu quero? Quero o Vasco podendo captar recurso a taxas razoáveis. Hoje, ao ir para o mercado, se vai sem planejamento, no sufoco. A gente paga o maior juro do mercado. Se for analisar o que a gente está pagando de juros a bancos, é um verdadeiro absurdo. Então, você só consegue melhorar isso se tiver planejamento e credibilidade. Se mostrar como vai pagar. Se não for falaciosa. Ouço muito… “ah, vou chegar no Vasco e conseguir US$ 100 milhões, resolver todos os problemas, contratar jogador…”. Eu não trabalho nessa linha. O meu trabalho é construir todo o dia e, lá na frente, ter um somatório favorável. Vou trabalhar com o pé o chão. Quero mesmo levar o Vasco ao mercado financeiro. Eles só conhecem o Vasco de ligar a televisão e ver o Vasco jogar. Do ponto de vista de organização, balanço e transparência, eles não conhecem.

Quem seria o seu VP de futebol e como será organização nessa pasta?

– Nomes a gente tem, mas é prematuro divulgar isso. Ainda mais que precisamos esperar passar a eleição para conhecer melhor o departamento, saber a estrutura. Temos um desenho de como vai funcionar. Vamos ter um VP de futebol, isso é compromisso. Ele será o elo de ligação entre os profissionais e a presidência. Com esse VP, abaixo dele, terá um CEO do futebol. Uma pessoa responsável por todo o departamento: o profissional, a base e o feminino. O que a gente pretende fazer também é trazer inteligência, digamos, comercial para o futebol. Ter uma pessoa eventualmente dedicada à comercialização de jogadores. Uma pessoa antenada ao que acontece lá fora, conectada com base e profissional. Para ela saber quais os jogadores estão em condição de negociação para a gente ser mais ágil e conseguir monetizar melhor isso. A gente acha que dá para melhorar essa receita com futebol. É basicamente isso. Não dá para querer inventar a roda e querer fazer uma mudança radical.

– Eu gosto de dizer que fiz a minha faculdade no Vasco e, depois, a pós-graduação na Seleção. Passei três anos na Seleção, disputei um Mundial e uma Copa América. Disputei 37 jogos com a Seleção, então, conheço um pouco esse ambiente, diferentemente de outras pessoas tenho experiência nisso. Para mim, é fácil pegar o telefone e falar com pessoas de outros clubes no Brasil e lá fora. Há um relacionamento grande.

– Na semana que vem, devo fazer uma viagem curta. Devo visitar o Barcelona, trocar umas ideias lá. Só não fico mais tempo e visito outros clubes pois estamos na reta final da campanha. Passada a campanha, tenho no radar sete ou oito clubes europeus, até dez, que eu vou visitar pessoalmente por meio de contatos que eu tenho.

– Outra coisa que quero trazer para o Vasco é que o Vasco comande o processo de venda de jogadores. Hoje, o Vasco terceiriza para empresários. Não tenho nada contra eles, em tese, é uma profissão como outra qualquer. Mas o clube tem de ter uma certa liderança nesse processo. Os clubes lá fora têm de receber essa informação. Se o clube lá fora quer um jogador, porque não se dirige diretamente ao Vasco? Vou dar essa abertura aos clubes lá de fora, entendeu? Pode ligar, sem problema. Não precisa ter o intermediário, essa relação pode ser melhorada, tem de ser mais direta.

Mas pode adiantar o perfil de quem vai comandar o futebol?

– Para o cargo de chefia, o do CEO, o profissional tem de ter reputação ilibada. Tem de ter história vitoriosa no futebol, tem de ter qualidades de conhecimento de futebol brasileiro e mundial, provavelmente uma pessoa que já teve experiência europeia, pode ser jogando. Essa pessoa tem de ter empatia em relação aos meios de comunicação, que saiba se comunicar. Uma pessoa que possa falar mais um outro idioma. Quero alguém de alto nível. Até para sinalizar para baixo o respeito. Isso gera motivação para baixo, é uma referência boa. É fundamental para as coisas acontecerem.

O Vasco tem uma dívida com o senhor, renegociada agora na gestão Campello. Como está esta situação?

– É simples. A minha dívida começa em 2013, com Roberto Dinamite. Recebi a visita do Rodrigo Caetano (ex-diretor executivo de futebol) e do Cristiano Koehler (ex-diretor geral). Vieram aqui de calça arriada. “Pelo amor de Deus, Jorge, você tem de ajudar. Estamos indo para o quarto mês de salário atrasado, os jogadores estão saindo”. Aquela história. Falei que não era banqueiro, tenho a minha poupança e tal. Bom, eles me convenceram que o Vasco estava perto de assinar com a Nissan. Então, no máximo, eles me disseram, que eu receberia de volta em dez dias. Eu já tinha emprestado dinheiro em outras administrações. Sempre recebi, fora do prazo, mas recebi. Resolvi, então, dar mais um crédito ao nosso clube. Era muito dinheiro, apertamos as mãos e fizemos um contrato de comodato que eu receberia em 15 dias mediante uma remuneração. Venceu 15 dias, não recebi. O contrato da Nissan não foi realizado. E, então, essa foi a justificativa para eu não receber.

– Veio o mandato do Eurico. Tomou posse, eu fui lá em janeiro. “Eu sei que você está vindo me cobrar, eles não pagaram a sua dívida”, disse ele. Pediu um tempo. Ele pediu um ano, que me pagaria na venda de jogador. Passou um tempo, ele vendeu o Luan e não me lembro mais quem. Com a venda do Douglas, entrariam R$ 70 milhões. Ele falou que não era bem assim, que teve de pagar três folhas atrasadas. O Carlos Leite. Ele propôs parcelamento. Mas eu emprestei à vista. Falei que ou era à vista ou que esperaria um presidente mais responsável que me pagaria.

– Agora em abril ou março, o José Luis Moreira (atual vice de futebol) me telefonou. O Vasco estava em um sufoco, sem dinheiro e clima ruim. Fui lá conversar com o Campello. Disse que não tinha como emprestar se o Vasco me devia. Parecia piada. Campello falou que se poderia vender o Talles. Então, eu perguntei como ele iria me pagar. Ele falou que seria ou com a venda do Talles ou com a premiação do Brasileirão. Escrevemos o contrato. Pegamos a dívida, corrigimos o valor, anulamos o contrato antigo e fizemos um novo com esse novo valor. Dei um desconto de 40% da correção, ou seja, perdi dinheiro. Mas tudo bem. Então, ficou acertado que iria receber no dia 20 de dezembro ao final do mandato dele.

– Quero acabar com isso também. Repercute mal. Sou uma pessoa que não gosta de aparecer, ainda mais dessa maneira. Alguém disse que quero me beneficiar, com altos juros. Eu prestei um favor ao meu clube, me desgastando, afinal, ninguém sabe se vai receber. Quero acabar com isso. Como falei anteriormente, se o Vasco precisar, vai ao mercado. Não vou pedir dinheiro a sócio ou a algum mecenas. É desgastante. Me atinge pessoalmente isso.

– Teve, aliás, um candidato que esteve aqui no meu escritório. No dia em que ele esteve aqui, saiu uma matéria dele falando que tinha gente emprestando dinheiro ao Vasco em benefício próprio. Eu falei, o rapaz, como você vem aqui dizendo isso, dando esse recado. Ele falou que não era para mim. Enfim, ninguém pé neném aqui. É uma inversão de valores. Entrei para ajudar e levo pau de todo mundo, como se fosse um agiota. Ao contrário, perdi dinheiro.

A eleição com voto direto muda algo no cenário? Na Assembleia Geral Extraordinária, 1,4 mil sócios votaram. O senhor entende que esse número foi baixo?

– O processo eleitoral está tumultuado. Está porque o presidente não construiu uma boa relação com os presidentes de poderes do clube. O nosso Direito é interpretativo. Muita coisa é de uma forma para você e de outra, para mim. A confusão toda começa no estatuto. Há interpretações diferentes. A nossa entende que o presidente da Assembleia é responsável pelos sócios que vão votar. E a Junta Deliberativa seria para tratar dos sócios que podem concorrer aos cargos. A partir de um determinado momento, essa comissão trouxe para si a condição de opinar sobre quem poderia votar. Achava que isso era competência do Mussa. Houve o embate jurídico.

– Não concordo que tenha havido participação pequena de sócios no AGE. Quantos sócios votam normalmente em uma eleição? 3,5 mil. Se de um dia para o outro, a mobilização da AGE gerou 1,4 mil… Não houve construção, convocação com mais tempo. Atingimos 40% ou 50%. Acho que foi relevante, sinceramente. Me surpreendeu positivamente. Dado o pouco tempo, achei que teria menos gente.

– Na reforma do estatuto, temos de contemplar uma eleição eletrônica. Acho até que essa de agora teria de ser híbrida. Até por conta da pandemia, ter uma presencial e outra pela internet. Há sócios com dificuldade de locomoção e com receio da Covid-19. A Justiça poderia estar sensível a isso. É algo a ser pensando. Cada vez mais, temos de resolver a nossas questões de OFF-Rio na base da internet.

– Foi tentado desclassificar isso. Se disse que foi fracasso o número na AGE. Foi um número alto, a eleição foi confirmada na sexta para ser feita no domingo. O clube enviou e-mail, e o Campello deu entrevista orientando a não votar. Então, acho que o número foi sensacional.

Qual o seu plano para a reforma de São Januário?

– Tem duas coisas sobre esse assunto. A primeira é o projeto que está lá, do Sergio Dias. O Campello fez, apresentou no Conselho de Beneméritos. Participei. É interessante, bem concebido. Atende ao torcedor, vai nos trazer maior conforto e mais receita. Acho que a gente deve seguir com esse projeto, talvez aperfeiçoando ou discutindo algum outro detalhe. Pretendo seguir nessa linha desde que haja recursos.

– A gente só vai iniciar se houver recurso. E uma coisa tem de ficar clara: os recursos alocados no projeto não são do caixa do Vasco. São de investidores. Pelo o que eu sei, a WTorre tem projeto de fazer melhoramentos em outros estádios. Quem iria financiar seria o Pactual.

– Ele capta, entrega os recursos para a WTorre, que entrega o estádio ao Vasco. Tenho ótimo relacionamento de muitos anos com o Pactual. Assim que estiver lá, vou entender e, tendo o Pactual, estou junto. Isso não pode interferir no meu caixa.

– Também quero continuar com as outras fases do CT, assim como o da base, que eu sei que está andando. Não é porque não comecei que não vou impedir o fim da construção. Pelo contrário. Os projetos são importantes e viáveis. É tocar os projetos.

Sem São Januário, joga onde?

– A gente quer voltar para o Maracanã. Temos conversas nesse sentido. A sinalização foi dada. O contrato está para vencer em novembro, e nós vamos participar dessa nova licitação. Queremos saber as condições e eu sei que os atuais têm interesse que o Vasco participe. É importante ao torcedor, todo mundo ganha. Queremos colocar um pé lá. período da construção, talvez se faça jogo de menor porte em outro local. Jogo de maior apelo queremos estar no Maracanã, que sempre foi a nossa casa. Vamos combinar, o estádio é a casa do futebol carioca. O Vasco, um clube de massa, não pode estar longe do Maracanã, estádio grande, com conforto e de fácil acesso.

Fonte: ge

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